setembro 30, 2006

A velha recompensa

O Sete à Sete, por fora, não promete o que acaba por fornecer ao estômago. A velha província do Minho ainda não está rendida à supremacia do "espaço de design".

Já não tenho como justificar com decência as minhas peregrinações pelo Minho – e sobretudo pelo Alto Minho. Eu bem tento: falo da paisagem, elogio o céu, recito sonetos, mas o meu estômago aplaude sempre que tem oportunidade. É um traidor; estamos entre amigos, e eu sugiro um pas­seio, uma "jornada de observação ao património", uma viagem curta de fim-de-semana sem destino nem justificação, e ele, o traidor, começa a lançar suspeitas, a procurar endereços, a vigiar os mapas. Sei o que ele quer, conheço-o. Mesmo os meus filhos começam a sorrir quando menciono a hipótese. Eles conhecem-me. E eu começo a reconhecer essa inquietação.

Há, evidentemente, um cardápio do Alto Minho – a lampreia, o cabrito, o saboroso pica-no-chão, o sável e as formas de tratar o bacalhau. Muitas vezes procuro satisfação para o estômago em outros pratos, uma invenção familiar, uma curiosidade que passou entre gerações, um delírio da cozinheira; a imaginação não tem limites quando os produtos que entram na cozinha são bons e apetitosos. Já me chegam as dietas a que temos obrigação de responder; as minhas peregri­nações são, por isso, desordenadas e irresponsáveis. Mas têm, reconheço, a ver com a pai­sagem. Há uns anos o Minho estava mais desagradável; lentamente, aqui e ali começou a borbulhar a ideia de que não se podia perder a paisagem, de que as vilas tinham de tratar da sua aparência, recuperar traças e fachadas, limpar as ruas. O resultado é francamente positivo e orgu­lho-me do meu país quando se veste de lavado mesmo quando tem de passajar uma roupinha usada (sobretudo nessas ocasiões, valha a ver­dade). Monção é um dos meus apetites, Melgaço,
Viana, Cerveira bem cuidada, Ponte de Lima sem­pre apresentável, Âncora arejada, Paredes de Coura de ruas novas, Ponte da Barca e Arcos - eu gosto e é quase sempre uma surpresa, sobretudo para mim que não sou minhoto e encaro cada incursão com a ligeireza de um turista.

E gosto desses restaurantes apetecíveis, onde se sus­peita – à distância – o calor de um forno. Estes dias de chuva que interromperam a canícula fazem-me apetecer pratos completos (já lá iremos na próxima semana, para concluir este roteiro de restaurantes do Minho). O Sete à Sete, por fora, não promete o que acaba por fornecer ao estômago – não se iluda.

A velha província do Minho ainda não está rendi­da à supremacia do "espaço de design" (ah, Porto!) sobre a culinária, se bem que haja exemplos em que vale a pena a associação. Beleza é quando vem para a mesa a broa de milho, escurinha e saudável, profunda. Então sim, começa a paisagem a ganhar sentido. A viagem começa a ser recompensada. Espera-se um pouco, à entrada, porque estava cheio o restaurante (espanhóis aqui e ali, gente de fim-de-semana), e era dia de cabritinho grelhado, estaladiço e suculento, muito bom. Não era, infelizmente, época de lampreia; o Sete à Sete oferece-a sobretudo de escabeche ou seca, e quem tem saudades do sabor do escabeche, que é completo, pode provar o sável preparado com cuidado, antes de se aventurar pelas carnes, que são supimpas, e de passar pelo bacalhau em posta firme e gelati­nosa (gratinado, recheado, com cebolada, assado na brasa): começa uma família ao lado com o arroz de sarrabulho e com o galo de cabidela. Soltam lou­vores, e eu respeito, mas ando pelo cabrito, já que não é dia de cozido – à minhota, multiplicando sabores e elevando as papilas até ao céu-da-boca, para que não se perca nada. As batatinhas são farinhentas e saem do forno para serem recebidas com comoção. Desfazem-se na língua, como previa Camilo num dos seus elogios (não era só Aquilino que lhes dedicava passagens ditirâmbicas). Com um vinho da região, a ligeira acidez pediu contas à sobremesa: barriga-de-freira e leite-creme, que antecederam o café e uma aguardente de vinho verde, cheia de odores, frutos, respiração.

Sete vezes recompensado.

Na próxima semana, leitores, agora sim, vamos ao cozido.

À Lupa
Vinhos: * * *
Digestivos: * * *
Acesso: * * * *
Decoração: * *
Serviço: * * *
Acolhimento: * * *
Mesa: * * *
Ruído da sala: * * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos Tintos: 48
Vinhos Brancos: 26
Vinhos verdes: 14
Portos, Madeiras e licores: 9
Uísques: 12
Aguardentes & Conhaques: 10

Outros dados
Charutos: Não
Estacionamento: Fácil
Levar Crianças: Sim
Área Não Fumadores: Não
Reserva: Conveniente

SETE À SETE
Rua Conselheiro João da Cunha
4950-407 Monção
Tel: 251 652577

Marcar golos é preciso

1. Thierry Henry foi con­siderado o melhor em cam­po no jogo de Londres com o F. C. Porto e Wenger não teve dúvidas: "Fomos os mais for­tes." Foram. O Arsenal ba­nalizou o E C. Porto. Desde a saída de Mourinho, aliás, que o F. C. Porto não conse­gue resultados internacio­nais visíveis. Não se trata de olhar de igual para igual para as equipas europeias, mas de resistir á ameaça de inferioridade. Há uma síndrome Artmedia a vaguear pelo Dragão e, igualmente, a evidência de que faltam pelo menos dois jogadores de grande qualidade em lu­gares essenciais do sistema de Jesualdo Ferreira (sem­pre que posso, insisto num avançado, mas há mais lacunas). Não vale a pena ter um meio-campo de boa qua­lidade se, lá à frente, não se marcam golos quando é pre­ciso. Quem viu a primeira parte do F. C. Porto-Beira-Mar sabe do que falo.

2. Carlos Daniel é um dos melhores narradores de fu­tebol em Portugal. Uma das pessoas que mais sabe de futebol, que eu conheça. Pa­rece que a selecção não gos­tava de Daniel, o que já diz muito da selecção e dos asteróides que gravitam em seu redor. Ora, sejamos cla­ros e directos: selecção não gosta de muita gente pela simples razão de que se jul­ga a bandeira nacional – e não é. E, mesmo assim, eu pos­so dizer que não gosto da ban­deira nacional. Mas não posso murmurar seja o que for sobre os métodos de Scolari ou sobre o resultado de um jogo, sem que saia ao caminho um pelo­tão de vigilantes, de sacerdo­tes e de censores encarregados de zelar pela unidade nacional. Esta gente delira. Tem a seu fa­vor as televisões, a euforia das rádios, a quase totalidade dos editorialistas da imprensa des­portiva (enfim, o negócio não pode colocar-se em risco, como se sabe), as massas. Que mais lhe falta? A selecção de Madail e Scolari é ambiciosa: quer tudo, quer toda a gente a tecer-lhe elogios, todas as vozes em uníssono, todos os joelhos a do­brarem-se. Para eles, o assunto não é futebol; só assim se expli­ca a vontade de ter toda a gen­tinha a aplaudi-los, de quatro. Não lhes basta a imparcialida­de; não: a imparcialidade dei­xa-os surpreendidos, estupe­factos. Eles acham que, com a selecção, não há equidade, im­parcialidade, sentido das pro­porções – quanto mais crítica ou desconfiança. Uma coisa de terceiro mundo. É por isso que eles não gostam de Carlos Da­niel, por exemplo.

3. António Fiúza demite-se ou não se demite? Depois do entu­siasmo das multidões, a ressa­ca adivinha-se triste, sobretu­do para o Gil Vicente.

in Topo Norte – Jornal de Notícias – 30 Setembro 2006

setembro 25, 2006

A reeleição mais difícil

Lula diz que o próximo domingo é dia de "onça beber água". O presidente brasileiro acha que vai ganhar no próximo domingo e está cheio de razão, mas não se sabe se haverá segunda volta. As sondagens dão-lhe um avanço considerável contra um adversário fraco ou, pelo menos, enfraquecido. Geraldo Alckmin não é José Serra nem Fernando Henrique - mas é o candidato.

Há uma razão para que haja segunda volta o Brasil não merece, apesar de tudo, ter Lula eleito sem passar por essa prova. Seria humilhante para o país que Lula pudesse reentrar no Planalto sem ser acusado, de frente, do maior espectáculo de corrupção promovido pelo poder político, desde há muitos anos, no Brasil. Por menos do que isto - os últimos dois anos do governo de Lula - Fernando Collor foi deposto em Brasília. Mas Collor não tinha a rua; e Lula tem a rua, como um pequeno Maquiavel populista, acobertado por organizações do "petismo" ou subvencionadas pelo PT, o seu partido, que quis ser o equivalente brasileiro do PRI mexicano.

O espectáculo do "mensalão", o escândalo dos "sanguessugas", a tentativa totalitária de o PT se apoderar de toda a máquina do Estado (banco central incluído), o encobrimento de casos de homicídio, corrupção e nepotismo (que incluiu os próprios filhos de Lula, que receberam fundos públicos para os seus negócios), a política externa indigente, o falhanço total de políticas desastrosas (que eram apenas marketing, como se provou) como o programa "fome zero" ou o "primeiro emprego" ou ainda a mediocratização da universidade e do sistema de ensino - são apenas alguns aspectos do consulado de Lula. Eles não bastam para confirmar o que estava previsto desde o primeiro dia da sua eleição, ou até antes. É preciso também enumerar os membros de um vasto comité que se apoderou do aparelho de estado à boa maneira estalinista, confundindo partido e Estado, interesses do partido e interesses do país José Dirceu, José Genoíno, Sílvio Pereira, Delúbio Soares, Antonio Palocci, Luiz Gushiken e muitos outros participaram desse espectáculo deprimente, cada um à sua maneira, ou enriquecendo as suas empresas, ou canalizando dinheiros perigosos para a máquina do partido e seus interesses, ou aceitando a inevitabilidade da corrupção.

Lula, que evita ser conotado com o seu partido, mas que recebe o apoio de Collor, de Sarney, de Delfim Netto, dos evangélicos e das oligarquias do PMDB, é a face de uma das últimas derrotas da esquerda. Falharam as suas bandeiras acerca da superioridade moral da esquerda e dos seus valores; foi nítida a sua falta de preparação política para exercer um cargo a que foi catapultado pelo messianismo político, sempre vivo no Brasil. Em todo o mundo, Lula serviu para mostrar que o antigo torneiro mecânico de São Bernardo do Campo, o retirante do Nordeste, podia chegar à presidência e vingar os pobres e os humilhados. Essa imagem era perfeita e belíssima - mas transportava consigo, nos acompanhantes do "palanque presidencial", o gérmen da sua própria destruição.

A base política e operacional de Lula, a que fabrica dossiês falsos para incriminar os adversários, a que se apodera dos dinheiros do estado, a que tenta dominar o aparelho da justiça e dos média (através de declaradíssimos instrumentos de censura à imprensa que culminaram, inclusive, na tentativa de expulsar jornalistas estrangeiros), vão dizer-me, não é a esquerda. Pode não ser. Mas não é a esquerda que está em causa. É um país varrido pela corrupção e pelas práticas políticas mais indecorosas. Lula devia ser obrigado a ir à segunda volta. E aí nunca se sabe.

Jornal de Notícias - 25 Setembro 2006

setembro 23, 2006

A flor do Tua


O Flor de Sal, em Mirandela, constitui uma espécie de corte radical com a ditadura da ementa transmontana mais rude e tradicional. O cosmopolitismo não faz mal a ninguém. É uma questão de maneiras e de garantias.

Mirandela foi, na minha infância, uma terra de passagem – eu ia e vinha entre o Alto Douro e Trás-os-Montes (sempre acreditei tratar-se de coisas diferentes) e Mirandela ficava no meio, traçada pelo espelho de água do Tua, anunciada pela estrada de curvinhas acentuadas vinda de Valpaços (com anda­mento, depois de Rio Torto, sempre junto ao rio), ou pela outra que descia de Vila Flor, passava pelo Cachão e acompanhava os choupos, freixos e negrilhos que ladeavam o rio, quê se encaminhava - esse sim - para o Douro. Percorri essa estrada milhares de vezes; fui levado de comboio, entre Bragança e o Tua, quase outras tantas. Depois, só depois, descobri outros caminhos – os que levavam à Aldeia do Romeu, os que subiam para o nordeste do nordeste, os que pediam caminhada e contemplação (entre a Terrincha e o Vale da Vilariça) e, seja como for, nunca os esqueci. Agora, sei que há mais razões para visita, e uma delas é o Flor de Sal, um restaurante inespera­do nestas paragens. Se é razoável esperar-se, digamos, o cardápio do Vidago Palace – o menu do Flor de Sal constitui uma espécie de corte radical com a ditadu­ra da ementa transmontana mais rude e tradicional - reinventando-a, recriando-a, tornando-a mais cosmopolita. O cosmopolitismo não faz mal a ninguém; é uma questão de maneiras, também, e de garantias. O Flor de Sal dá essas garantias.

Ele há uma coisa que me espanta, recordando a minha infância e adolescência na região (ou por lá perto): havendo tanta diversidade de arrozes na cozinha doméstica, por que razão os restaurantes os evitam? O Flor de Sal disponibiliza uma grande quantidade deles, além da paelha de marisco; aí estão os de marisco, bacalhau, polvo, pato, chocos (com tinta), coelho, tordos, perdiz e cogumelos (acrescen­taria os vários de couve, mas isso é outro tema).

Ladeando os arrozes, uma ementa regional que con­vém encomendar antes: o pernil fumado, a alheira (ah, Mirandela!, tens de fazer jus à tradição), azedos (fantástico enchido, tostadinho), o butelo com cascas (uma ementa adorável, onde as cascas do feijão seco servem de aglutinador para os sucos das carnes e dos enchidos), as almôndegas de alheira com arroz branco (estou mortinho por prová-las, bem como ao tronco de alheira ou o cozido da casa), entre outros.

Da ementa das carnes, ainda, destaquemos o pato ('confit' de pato, 'magret' de pato com frutos gratinados, ou envolto em massa folhada) a perdiz de escabeche e algumas delícias de 'foie gras' (ou o mil folhas elementar ou temperando o medalhão de vitela), uma posta de vitela em azeite, o medalhão com queijo terrincho, os tordos com alho e os bor­regos e cabritos: costeletas, assado no forno ou em vinho do Porto. Além disto, há ainda bifinhos com redução de moscatel, o chuletão grelhado ou leitão no forno (à transmontana, segundo um dos meus amigos). Para quem seja abstémio em matéria de carnes, há lasanhas (de legumes e de beringela), bem como uma parrilhada de legumes e uma pasta de brócolos e tomates. Deixei para o fim uma menção aos peixes, porque nem sempre é fácil encontrar uma lista tão diversificada na região: além de polvo com ervas ou frito com arroz de tomate, há bacalhaus vários (evidentemente: 'souquet', à Brás, com natas, assado no forno com batata a murro ou confitado e frito em azeite de malaguetas), salmão em crosta de amêndoa (há também um cherne com molho de amêndoa), rodovalho com algas, peixe ao sal (robalo, que também se apresenta grelhado com tomate ou com molho verde), medalhões de tamboril em vinho branco, lulas grelhadas e umas marmotinhas com arroz de tomate malandro, entre muitas outras propostas.

Evidentemente que as entradas são formosíssimas, como o medalhão de 'foie gras' com fruta confitada, o 'carpaccio' de bacalhau (eufemismos...), o mil-folhas de 'courgettes' com vinagrete de nozes e redução de frutos silvestres, ou as repolgas grelhadas com azeite, de que tinha saudades (são uns cogumelos de primeira categoria). O Flor de Sal insiste em apre­sentar uma boa lista de azeites, além de um menu de degustação apenas para azeites que sugiro sem dúvidas; depois, há uma boa escolha de cogumelos (boletus, repolgas, murcas, etc.). Dizer que valem a pena a visita e o desvio na estrada é muito pouco. É muito bom.

À Lupa
Vinhos: * * *
Digestivos: * * * *
Acesso: * * * *
Decoração: * * *
Serviço: * * *
Acolhimento: * * * *
Mesa: * * *
Ruído da sala: * * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos Tintos: 102
Vinhos Brancos: 26
Vinhos verdes: 10
Portos & Madeiras: 11
Uísques: 22
Aguardentes & Conhaques: 17
Champanhes & Espumantes: 30

Outros dados
Charutos: Sim
Estacionamento: Fácil
Levar Crianças: Sim (tem menu infantil)
Área Não Fumadores: Não
Reserva: Conveniente
Preço médio: 25 Euros

FLOR DE SAL
Parque Dr. José Gama
5370 Mirandela
Tel: 278 203 063
Telm: 91 2583982 e 96 2002620
Aberto todos os dias

in Revista Notícias Sábado – 23 Setembro 2006

O treinador que não gosta de revoluções

1. Jesualdo Ferreira anun­ciou aquilo que muitos adep­tos do F. C. Porto esperavam ouvir há alguns anos: que está a treinar lances com "bola pa­rada" . É um défice natural do F. C. Porto. André Cruz no Sporting, talvez Simão no Benfica e alguns disparos de Doriva - todos lembram golos assim. Deco tinha lances, mas sujeitos a inspiração so­brenatural e, desde aí, rara­mente o F. C. Porto conseguia chegar à rede do inimigo com um tiro de canhão. Quando vejo um jogo pela televisão e o F. C. Porto beneficia de um li­vre directo, sei que posso le­vantar-me e regressar daí a pouco – não virá perigo. O pormenor pode passar por ser apenas um pormenor mas vale muito mais do que isso; vale por Jesualdo, o treinador que não gosta de revoluções nem de so­bressaltos. Quem joga assim tem mais hipóteses de conse­guir análises certeiras no tabu­leiro de xadrez; são os méritos do conservador face ao destrambeIhamento de Co Adriaanse, o do molho holandês.

2. Em redor de Luís Filipe Vieira vive uma equipa que tenta outros lances, mas que se adivinham com mais facili­dade – por exemplo, saber se o presidente benfiquista se recandidataria ou não. Claro que ia recandidatar-se; o po­der do Benfica vale muito, apesar de tudo. Mesmo assim criou-se a ideia do "tabu", o lance criado por Cavaco Silva em 1995. Mas para alimentar um tabu que valha a pena é preciso mais do que talento; é preciso valer a pena. E a candi­datura de Vieira não merece tan­to. Vale promessas – que em 2011 o Benfica será um colosso euro­peu, e que daqui a uns meses (mais uns) haverá mais uns milhares de kits distribuídos; e que a grandeza do Benfica se espalha pelos cinco continentes. Como sempre, o Benfica yale mais do que o seu futebol. É o destino.

3. A guerra dos "tabus" e dos "dossiês anónimos" (ou seja, dos dossiês de onde se retirou uma assinatura) continua a ilustrar a guerra dos pequenos de espírito. Santana Lopes falava de Canal Caveira e prometia provas. O Benfica entregou o seu dossiê e fala de provas. Há teorias da conspiração para todos os gos­tos, basta haver quem as compre ao preço a que está o pechisbe­que: em saldo.

4. Jardel regressou com dois go­los no campeonato e esta sema­na defrontou o F. C. Porto, que o criou verdadeiramente e onde teve direito a tudo - até a um trei­nador que o teve como o maior goleador do campeonato e que nem assim conseguiu o título.

5. O golo do Paços de Ferreira em Alvalade foi inequivocamente marcado com a mão. Já houve golos contabilizados que nunca entraram na baliza. E golos mar­cados que foram invalidados. Há quem pense que existe uma in­justiça futebolística que faz justi­ça pelas próprias mãos. Mãos, mesmo.

in Topo Norte – Jornal de Notícias – 23 Setembro 2006

setembro 18, 2006

Carta aos amigos muçulmanos

Caros amigos sei que a figura do Papa não é insignificante; o que o chefe dos católicos diz adquire um peso que ultrapassa os limites do mundo católico. O vosso comunicado sobre as declarações do Papa é cauteloso e inteligente: reconheceis a tristeza que causou entre os muçulmanos a conferência de Bento XVI (era um texto académico) mas admitis que, bem vistas as coisas, não era caso para tanta efervescência. Lamentais que o Papa tenha dito o que disse nestas circunstâncias ("o Papa foi decerto muito infeliz na sua escolha, sobretudo nos tempos tão conturbados em que vivemos").

Compreendo "as circunstâncias", mas não a "ladainha do queixume". Se concordais em que não "parece que fosse intenção expressa do Papa Bento XVI atacar o Islão e os muçulmanos, sobretudo atendo à forma como termina, incitando ao uso da razão no diálogo de culturas", não compreendo a reacção de muitos dos vossos amigos e companheiros de fé, para além daqueles que - um pouco por todo o lado, no Médio e no Extremo Oriente, em Londres e em Paris - são companheiros da vossa fé mas não serão, certamente, vossos amigos. Pessoalmente, achei pertinente a conferência do Papa na Universidade de Ratisbona; estimulante, como agora se diz - e feliz na forma como deixa esse apelo sensato ao uso da razão.

Portanto, não compreendo como esse apelo (com o qual concordais) pode constituir, nas vossas palavras, um "infeliz exemplo". Infelizes exemplos encontramo-los diariamente noutros lugares e nestas mesmas "circunstâncias", causando devastação, morte e perseguição religiosa.

Sabeis que não sou um homem de fé, mas tenho argumentos a meu favor no diálogo com o Islão - não com o terrorismo, com os fundamentalismos ou com as guerrilhas que só falam através das armas e das bombas, do vosso lado e do meu lado. Se vos recordais, foi pela minha mão que, em muitos anos de relações entre as comunidades judaica e muçulmana (não apenas de Portugal), um rabino entrou pela primeira vez na vossa mesquita em Lisboa; faltava ainda algum tempo para o Ramadão mas era véspera de Sukot no calendário judaico e foi também comigo que pela primeira vez o xeique David entrou na sinagoga Shaare Tikvah, em Lisboa. O diálogo, que alguns pedem consoante as circunstâncias e os interesses políticos de momento, não pode existir se não se praticar. Não podeis furtar-vos ao diálogo com o argumento de que os argumentos dos outros vos ofendem; muitas vezes, os outros ("os outros" do meu lado) querem apenas compreender. Temos certamente posições diferentes sobre o riso, sobre a condescendência ou a intransigência diante dos dogmas, sobre os direitos humanos, sobre a liberdade e sobre a natureza e os direitos da fé religiosa.

Ao contrário do que se diz correntemente em "encontros ecuménicos", caros amigos, penso que, ao longo dos tempos, a religião tem sido um factor de guerra mais do que elemento de paz. Provavelmente, atravessamos um desses momentos, com erros de ambos os lados da barreira em que nos colocámos e que não é unicamente religiosa. As três principais religiões do Livro, como sabeis, não podem invocar um plano de inocência total ou até parcial em matéria de respeito pelos outros, de tolerância e de justiça. É o que menos me preocupa. Falemos como homens, uns diante dos outros.

Frequentemente vos ouço falar de "ofensas". Compreendo o princípio mas não posso abdicar daquilo que sou e somos prezamos a liberdade, o diálogo e a tolerância. Defenderei os vossos direitos. Mas não estou em condições de vigiar permanentemente cada frase para ver até que ponto vos ofende a maneira como citamos um autor, um versículo ou uma data. O Papa falou; não vos indigneis. Ripostai. Falai. Mas dizei-me se achais bem que queimem as ruas por causa de uma frase.

in Jornal de Notícias - 18 Setembro 2006

setembro 16, 2006

Elegia da neblina

O cronista, diz, tem direito a pressentimentos românticos. E o Minho continua a estar no seu roteiro sentimental – ou seja, gastronómico. A Adega do Sossego, em Melgaço, é um exemplo.

Camilo queixava-se, não sem razão, de que se esperava sempre mais "do folhetim", cavalarias, trombetas cujo som chega das nuvens, campos cheios de flores, amores felizes, paisagens bucólicas ou festivas, diálogos fantásticos – mas a vida é outra coisa. Bom Camilo. Folheio os seus livros muitas vezes como uma enciclopédia; têm tudo: política, sentimento, até literatura, amores con­trariados (muitos), maledicência (bastante), Minho, Porto e gastronomia. Não é uma enume­ração, sequer; trata-se de "um repente" que dá no leitor de Camilo quando se levanta numa destas até aqui raras manhãs de neblina portuense, ao fím-de-semana, e toma a estrada que passa pelo meu litoral de infância e adolescência, quando ir à praia significava "ir para a praia" (uma semana, uma quinzena, umas semanas) e havia romarias sensuais de Verão, muito aborrecidas na minha memória – mas recuperadas com o tempo.

Seja, pois, o Minho. O leitor sabe que nutro uma certa simpatia romântica pelo lugar – e o meu estômago agradece porque, a cada peregrinação, quer pelas colinas das serras quer pelo litoral verdejante que me leva quase sempre à Galiza, há sempre um lugar de poiso agradável. Um dia falarei do assunto. Seja, pois, o Minho – porque o cronista tem direito aos seus pressentimentos românticos e a misturar o seu roteiro sentimental com o seu mapa gastronómico, partindo-se do princípio de que cada um é como é. Já não ia lá há muito tempo, porque Melgaço fica num dos pontos extremos do meu atlas – o que é pena. O meu avô bebia águas de Melgaço e gabava-Ihe as virtudes, que eram sempre excedentes em relação às suas potencialidades. Eu, que relembro essas garrafas escuras de águas termais, passo adiante na direcção da mesa da Adega do Sossego, como um pecador convicto. "Pecai, pecai!", dizia o santo. Eu obedeço.

A mesa está repleta de entradas saborosas - enchidos cuidadosos no seu tempero, pão fresco (e não apanhei lampreia fumada!), pratinhos con­vidativos. Um quarteto de cordas, uma música de câmara entra pelos meus ouvidos cheios de ressenti­mento nestas paredes "rústicas", de adega caseira, toalhas brancas, rumores e humores da cozinha, latadas no exterior sempre visíveis das janelas. É o meu Minho. Se nesta altura do ano a lampreia (à bordalesa, cozida, panada, seca, envolvida no arroz caldoso e humedecido até às minhas lágrimas) não faz aparição permanente, contentemo-nos com o bacalhau na brasa, excelente, de cebolada – se bem que um dos meus companheiros me provasse a excelência da sua truta com presunto (que a mim me lembrou o vetusto e outrora monumental Santa Cruz, de Boticas, de boa memória) e do sável local. Fui, pois, pelo bacalhau – ah, aprendei, restaurantes urbanos, lisboetas e quejandos!, a respeitar a lasca salgadinha, gelatinosa, perfeita, elegante, carregada de evocações numa posta alta e firme, preparada para transformar a nossa alma numa coisa desmilinguida. Depois, fui pelo costeletão, frondoso, for­moso, formidável, coisa rara de se encontrar nos restaurantes da União Europeia, com a grandiloquência do entrecosto de vaca (ou costela de tira - e, como era domingo, havia um cozido que, murmuro baixinho, está doravante entre os primeiros da minha lista (em breve vos falarei do cozido do Conselheiro, de Paredes de Coura). Que vitela fan­tástica! Pedi grelos - havia, azedinhos, compostos, suculentos. Vi passar um cabritinho numa travessa muito composta e rejubilei porque vinha para a nossa mesa: batatinhas farinhentas, boas, textura muito aceitável.

Bebi o vinho da casa, Alvarinho da Adega do Sossego propriamente dito. Esqueci-me, portanto (está bom de ver), dos meus deveres de cronista, que devia estar a tomar notas, comparar, avaliar, exercer o que restava da minha honorabilidade. Não me lembro de mais nada. Apenas da neblina que caía sobre mim num domingo cheio de sol. E se a neblina não vinha do céu, de algum lado vinha. Que sossego, senhores, que sossego. Foi a última coisa de que me lembro.

À Lupa
Vinhos: * * *
Digestivos: * *
Acesso: * * *
Decoração: * *
Serviço: * * * *
Acolhimento: * * * *
Mesa: * * * *
Ruído da sala: * * * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos Tintos: 80
Vinhos Brancos: 50
Portos & Madeiras: 12
Uísques: 20
Aguardentes & Conhaques: 18

Outros dados
Charutos: Não
Estacionamento: Fácil
Levar Crianças: Sim
Área Não Fumadores: Não
Reserva: Imprescindível
Preço médio: 25 Euros

ADEGA DO SOSSEGO
Lugar do Peso, Paderne
4960-310 Melgaço
Tel: 251 404 308
Encera às quartas; fecha­do até 30 de Setembro

in Revista Notícias Sábado – 16 Setembro 2006

Elogio da vaidade pura

1. Parece, dizem os jornais, que há 65 investigações a de­correr sob a alçada do Minis­tério Público e a rondar a cha­mada "corrupção no futebol". Também pelos jornais ficá­mos a conhecer algumas das escutas realizadas no âmbito das investigações policiais - e quase nenhuma delas é edifi­cante - bem como um parecer do Prof. Gomes Canotilho so­bre uma eventual inconstitucionalidade que marcaria o processo do Apito Dourado. Tudo isto confere; fosse o pro­cesso relacionado com cor­rupção na política ou com cri­mes na rua e a Imprensa seria muito mais cuidadosa e usa­ria palavras corno "alegado", "suposto", "provável", etc. Como é futebol – meia bola e força é quanto basta. Apitos dourados é no que dão.

2. Mas o futebol entrou, mes­mo, em marcha. Refiro-me ao futebol dentro do campo, aquele que não engana, não está sujeito a segredo de justi­ça nem aos desmandos da obrigatoriedade de sermos patriotas. Por isso, deixem que lhes diga: está sofrível, a bola dos portugueses. Sim, o Sporting enfeitou os ombros do Inter com um inesperado golo de Caneira – mas o F. C. Porto e o Benfica ainda não acertaram. Por este caminho, o Benfica, aliás, não acerta e o JN de ontem falava da "preo­cupação de Fernando San­tos" . Salvo erro, isso não é de grande ajuda a uma equipa que joga futebol de nível inferior e logo depois de levar três no Bessa. Recomendações, é o que lhes deixo.

Quanto ao F. C. Porto, vê-se que ainda gatinha e cuido que Adria­no corre o risco de transformar-se num McCarthy, tanta a quantidade de golos que podiam ter en­trado e não entraram. Às vezes, a bola traça-lhe tangentes, encos­ta-se-lhe a pedir para ser empur­rada para a baliza – mas a per­centagem de desacerto é esma­gadora. Jogar é afastar a infelici­dade; em futebol, falhar golos é o princípio da infelicidade mesmo que os floreados se encaminhem na direcção certa.

3. O que me fascina em Anderson, no miúdo, nem é tanto vê-lo jogar agora, rasgando laterais, traçando linhas sobre o campo entre as pernas dos adversários - mas sim tê-lo visto jogar no Grê­mio de Porto Alegre, durante aquela finalíssima que ditaria a subida à série A, no ano passado: Gaiato, o guarda-redes, tinha de­fendido dois penaltis e o Grêmio estava reduzido a oito jogadores, com três expulsões milimétricas e bem encomendadas. O garoto entrou e salvou o jogo. Eu, que sou gremista, tricolor gaúcho, não esqueci o gesto. Um ano e tal depois, Anderson deu aquele golo a marcar a Lucho, o capitão argentino. Os comentadores fa­lam de humildade e medo de re­petir um falhanço anterior. Não: foi, antes, um gesto de pura ele­gância, de pura vaidade. Os futu­ros génios têm coisas dessas.

in Topo Norte – Jornal de Notícias – 16 Setembro 2006

setembro 13, 2006

Prós

Se acham que foram os americanos a mandar os aviões contra o WTC, eu acho bem. É preciso que assentemos numa verdade. Se acham que cada um de nós tem culpa dos crimes do fundamentalismo e anda a humilhar o Oriente e o Magrebe, transformemos isso numa verdade inquestionável (basta ouvir os noticiários). Paguemos a Kadhafi, como ele exige, para evitar que a emigração do outro lado do Mediterrâneo chegue às praias de Espanha e de Itália (chantagem por chantagem, o melhor é pagar ao chantagista directamente em vez de votarmos depois de fazerem explodir Atocha). Consideremos que o uso da burka e a excisão feminina são apenas questões de natureza cultural e que, no fundo, são reacções contra a arrogância ocidental e as pernas de Mary Quant, essa vaca imoral. Claro que estamos de acordo em que o Ocidente tem falta de Deus e que Maomé tem lições a dar-nos, ele e os outros profetas de vária procedência; o criacionismo integrista está aí para nos salvar. Vigiemos os caricaturistas, vigiemo-los bem. Claro que andamos a irritar o mundo das mesquitas fundamentalistas; aceitemos, portanto, a bondade de nova fatwa contra Rushdie e, mesmo agora, contra Mahfouz. Eles têm razão quando escrevem, nos cartazes, «Freedom Go to Hell» ou «I love Al Qaeda»; temos de ser compreensivos. Aliás, ainda não está provado que a Al Qaeda exista. Bin Laden não é apenas uma invenção americana: é um Zorro libertador das massas, um produto de Hollywood; o verdadeiro Bin Laden é um canadiano da Guarda Montada que se limita a pedir a proibição dos Simpsons, o resto é invenção. Claro que o fundamentalismo muçulmano é compreensível (está longe). Os israelitas são ensinados nas escolas a matarem crianças árabes, como toda a gente sabe, basta ler os Protocolos dos Sábios de Sião, que é (ao contrário do que diz a propaganda sionista) um documento histórico; por isso é que eles precisam da sua dose diária de sangue; aliás, muitos deles não vieram do centro da Europa e daquelas terras do Drácula? Qual é o mal de o pessoal de Finsbury Park pregar contra a democracia inglesa e pedir bombas no metro de Londres? Nós não pregamos contra as tiranias do Médio Oriente? A ideia de que o Califado deve ser restabelecido, para cá do Guadalquivir, até ao Mondego e à Faculdade de Economia de Coimbra, não está senão justificada pela história. O Ocidente, como aliás diz Ratzinger, está minado pela falta de Deus e pela presença do Satã laico e racionalista; por isso, é necessário sermos compreensivos para com os sentimentos religiosos que autorizam o apedrejamento de apóstatas, a lapidação de mulheres, adúlteros e homossexuais ou a mutilação de infiéis; é o regresso da religião. Mesmo que o Irão, o Hamas e o Hezbollah, mais a Irmandade Muçulmana afirmem que um dos seus objectivos é a eliminação do estado de Israel, quem somos nós para defender o desarmamento do Hezbollah? Os americanos são boçais, obesos, comem hamburgers, acreditam que há uma colónia de extraterrestres no deserto do Novo México onde fundarão uma nova Las Vegas, falam nasalado e usam botas texanas; esse é, ou não, um argumento suficiente para os termos como inimigos? É. E, além do mais, devia-lhes ser retirado o direito de voto. A tolerância faz mal ao Ocidente; tem enfraquecido a sua moral. A liberdade de imprensa do Ocidente pode ser ofensiva; limitá-la para não ofender os xeiques de Jakarta, os rabis de Meah Sharim ou os maluquinhos do Utah é um imperativo. A pobreza conduz ao bombismo; temos de ser compreensivos para com o bombismo. Em África não há bombistas, mas apenas porque não têm dinheiro saudita ou wahabita para fazer bombas e, na verdade, não estão preparados para a democracia, o que nos leva a termos que ser compreensivos para com as tiranias, os seus abusos e a corrupção dos governos. Podemos enviar dinheiro; é falso que os militares e os tiranos desviem esses dinheiro das populações para proveito próprio. Bush teve uma falsa revelação divina; o profeta John Smith apareceu-lhe em sonhos mas falou-lhe em inglês erudito; o gabinete de Bush faz orações antes de reunir, mas ele cruza os dedos por debaixo da mesa.
Espero que, para já, isto seja o suficiente.

in A Origem das Espécies - 12 Setembro 2006

setembro 12, 2006

Et maintenant en français





setembro 11, 2006

O partido único e o cartão único

1. A assinatura do pacto para a justiça, na semana que passou, é um acontecimento relevante. A ideia dos “pactos de regime” atravessa de vez em quando a vida política portuguesa; Vasco Pulido Valente fez bem em relembrar que a ideia pertenceu a Sá Carneiro nos primeiros anos de democracia, como forma de assegurar um mínimo de estabilidade e de consenso. Trinta anos depois, não sei se essa “exigência” fará sentido.

A última vez que a ideia de um “pacto para a justiça” foi brandida como uma solução miraculosa para resolver os problemas “do sector”, era Santana Lopes primeiro-ministro e o país ainda fervia de indignação e suspeita diante de alguns escândalos judiciais. Percebeu-se a intenção mas ninguém avançou realmente para esse mínimo de “estabilidade e consenso”.

Não vem mal ao mundo que exista um “pacto de regime” – na verdade, o mais assustador é que se mencione permanentemente a sua necessidade como se o regime estivesse em perigo e precisasse de salvação. Não está e não precisa. O regime funciona com alguma normalidade. Não existe, como em Espanha, um perigo secessionista ou a ameaça do terrorismo; mas há sectores, ligados à vida do Estado, em que é necessário haver um acordo de princípio e é provável que o da justiça esteja em primeiro plano, juntamente com o da chamada reforma da administração pública. Há outros sectores em que um pacto não faz qualquer sentido – porque há opiniões diferentes sobre o que está em causa na economia, no sistema de ensino, no financiamento da segurança social ou nos regimes fiscais.

O consenso não faz mal a ninguém, mas a diferença existe para ser preservada e é útil que se separem as águas. Voltando ao assunto da semana passada, estamos a viver um momento especial da nossa história política que se traduz num realinhamento pelo centro, e que é resultado de duas eleições históricas: as vitórias de Sócrates e de Cavaco Silva fizeram coincidir eleitorados aparentemente distintos depois de uma fase de ressentimento inútil. A direita não fica desconsolada (como previa) com as iniciativas de José Sócrates e a esquerda não veio para a rua (como ameaçava) se Cavaco chegasse a Belém. Cavaco não promoveu o golpe de Estado que o soarismo, por exagero folclórico, antevia; e Sócrates não se mostrou, como a direita temia, “irresponsável” no ataque à indisciplina da administração pública. Pelo contrário, em seis meses Cavaco mostrou que é um bom presidente, e num ano Sócrates foi corajoso como nunca a direita o foi em matérias como a reforma do Estado e a criação de índices de confiança entre os cidadãos. O caminho estava preparado para a aliança entre ambos.

Simplesmente, há limites para o consenso. É normal pensarmos que PS e PSD defendem “sistemas de vida” diferentes, ou, pelo menos, deviam defender – e que Marques Mendes não é a outra face de Sócrates. E por isso é importante que este acordo de regime para a justiça não seja a antecâmara de uma exigência de consenso nacional sobre outras matérias. O país pode viver sem “pactos de regime”. O bem comum não assenta na unanimidade, obtida sob pressão, como se fosse inevitável – e muito desejada pelos partidos únicos.

2. A ideia do “cartão único” merece ser discutida: trata-se de um documento que vai substituir o Bilhete de Identidade e os cartões de identificação fiscal, de eleitor, de utente dos serviços de saúde e de beneficiário da Segurança Social, e que permite ainda registar informações pessoais relativas ao grupo sanguíneo, a indicações de alergias ou contactos do cidadão. A partir de agora, se essa ideia não for, como parece que é, declarada inconstitucional, cada cidadão terá um “chip” no bolso. Começa-se a controlar por algum lado. Dificilmente se acaba o desfile de coisas absurdas que acontecem depois.

in Jornal de Notícias – 11 Setembro 2oo6

setembro 09, 2006

Lina e António

Em Leça da Palmeira, o Arquinho do Castelo, que recentemente mudou de sala, tem aquela suavidade branca que abre o meu apetite e a vontade de pecar abundantemente.

A tradição dos restaurantes de Leça e Matosinhos leva-me ("transporta-me", como dizem os autores) à minha infância. O meu pai gostava deles e visitá­mos alguns nesses anos em que eu não prestava grande atenção ao assunto – a falar verdade, eu deveria ter acondicionado e congelado toda a comida que recusei na altura. Estaria hoje mais reconfortado e verdadeiramente alimentado por muitos dias. Enfim, não voltes ao passado – é a lição que nunca se aprende.

Eram, às vezes, restaurantes ruidosos, onde peixes e mariscos se acotovelavam para chegar às mesas – em doses triunfais, vastíssimas e apetitosas. De vez em quando volto lá, aos clássicos de Leça e Matosinhos, para saborear essas memórias – e trazer outras, mais de agora, que se aconchegam com perfeição na maior parte das vezes. O meu problema é que vou com apetite aos restau­rantes. Às vezes, esfaimado. Outras, em pânico, elaborando listas do que se vai comer. A generali­dade das pessoas decentes não faz isso: algumas entram num restaurante já com aquela displicência bem-comportada, preparadas para mordiscar mas não para encontrar a salvação. Ora, para mim – que gosto bastante de comer em casa –, ir a um restau­rante é uma tarefa que encaro com a satisfação de um caçador em dia de (finalmente!) ir à caça. E, portanto, prepara-se psicologicamente. Olha-se ao espelho para tentar imaginar as papilas, desentorpecidas, saltitando - e expectantes. Escolhe a camisa. Penteia-se. Finalmente, entremos no restaurante.

O Arquinho do Castelo, que existe há uns bons anos e que recentemente mudou de sala, tem aque­la suavidade branca (das suas toalhas imaculadas) que abre o meu apetite e a vontade de pecar abundantemente. Passam pratinhos de morcela assada, de enchidos ou de salada de polvo e rissóis – e de uns bolinhos de bacalhau bem feitos, na hora, estaladiços, convenientes. Há quem desde logo trinque uns camarões ou percebes. Eu sou, o leitor sabe, fanático por percebes; os do Arquinho eram superlativos, carnudos, trazendo o mar para a mesa. Como era à noite, houve quem preferisse um cremezinho de camarão em vez da sopa de feijão que estava anunciada na ementa; mas o leitor sabe o que foi a minha escolha – estava muito, muito boa. Comecei, ali, a ver que tínhamos uma cozi­nheira com mão séria: a D. Lina iria ser uma bênção para o meu estômago, dos bolinhos de bacalhau até à aletria final, ou ao leite-creme queimado (mas a aletria é boa, boa, vão por mim). Entre essas entradinhas e a sobremesa final, o olho cobiçoso do caçador de restaurantes viu passar o tradicional polvo assado no forno, negro, escurinho, cheio de odores pecaminosos; provou o arroz de tamboril - uma garfada saborosa; o peixe ao sal avançava por entre as mesas (robalinho no sal, sim), à mistura com peixes frescos (rodovalho, carapau, goraz, salmonete, lulas, cherne...) e com uns filetes de pescada fresca com arroz de camarão, antecedendo uns saborosos filetes de sardinha – abertos em rigor, panadinhos, muito frescos, que se pediram com arroz malandrinho de camarão. E então vieram os filetes de polvo "com arroz do mesmo": que dizer-te, leitor? Tu sabes. Há coisas que não preciso de escrever, basta enumerar, relem­brar, citar de memória. O resto é dispensável. Está ali, ao canto da sala, o sr. António (Toni) que não nos deixa mentir.

Para quem prefira a carne, as opções são honestas, dentro desta medida: bife do lombo, vitelinha assa­da no forno (com batatinhas no forno e legumes salteados), arroz de pato – e o que houver no dia, como iscas de fígado, tripas à moda do Porto, panadinhos com arroz de tomate. Ao fim-de-semana o Arquinho tem sempre um desses pratos espe­ciais que convém reservar, desde arroz de cabidela até um fantástico cabritinho no forno ou arroz de polvo seco. Tentativas de nos fazer pecar não fal­tam, como se vê. O sr. António e a D. Lina são responsáveis por este quilo e meio a mais que já abati, mas que tentarei recuperar em breve, em próxima visita. E sempre assim.

À Lupa
Vinhos: * * *
Digestivos: * * *
Acesso: * * *
Decoração: * * *
Serviço: * * *
Acolhimento: * * *
Mesa: * * * *
Ruído da sala: * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos Tintos: 72
Vinhos Brancos: 31
Portos & Madeiras: 20
Uísques: 22
Aguardentes & Conhaques: 12
Champanhes & Espumantes: 10

Outros dados
Charutos: Sim
Estacionamento: Parque nas proximidades
Levar Crianças: Sim
Área Não Fumadores: Não
Reserva: Muito conveniente
Preço médio: 25 Euros

ARQUINHO DO CASTELO
Rua de Fuzelhas, 192
4450-683 Leça da Palmeira
Tel: 22 995 15 06
Encerra ao domingo

Velas à santa

1. Imaginemos que eu tenho em meu poder, devidamente dactilografado e com anexos, apensos e notas de rodapé, um relatório sobre actividades alegadamente comprometedoras de uma, duas ou vinte instituições que não fazem jeito que existam. Chamo-lhe “dossiê”, exibo-o diante das câmaras de televisão, ameaço, sustento que me chegou às mãos por razões que desconheço – e que o seu autor, anónimo para todos os efeitos, me disse ser tudo verdade. Claro que eu posso ter mandado coligir os documentos, reunir os anexos e redigir a acusação. Mas que importa se as massas agradecem e a multidão rejubila? Assim vai o futebolês. Uma espécie de vergonha escrita a baldes de tinta vermelha.

2. O mundo das escutas telefónicas é trepidante, como se sabe. Ora menciona camaradagens ora nos revela um pouco do modo como todos entram no reino dos céus, escolhendo árbitros e deixando as pegadas no chão. Por elas, ficámos a saber que ninguém quer estar a salvo.Um dos autores clássicos mais chatos de ler, J. J. Rousseau, o teorizador moderno do estado totalitário e das baboseiras mais infernais sobre a educação das crianças (ele tinha abandonado os seus próprios filhos), passou a vida a queixar-se da saúde, das perseguições, das armadilhas, dos outros. Com o tempo descobriu-se que era quase tudo mentira. Ele apenas se julgava melhor do que os outros. Aprendam.

3. Sejamos cruéis ao menos uma vez na vida. Ganhámos aos penaltis com a Inglaterra, andámos ao sopapo com os holandeses, perdemos com a França e com a Alemanha, depois perdemos com a Dinamarca – e, finalmente, recuperámos, empatando com a fantástica, soberba, inacessível e temida Finlândia. Não é mau, desse ponto de vista. Evidentemente que a chegada ao topo se constrói passo a passo, com vitórias, empates e derrotas, mas Scolari continua a treinar a rapaziada da Selecção como treinava o Brasil de Pelotas e o Grêmio de Porto Alegre: esforço físico, abnegação, cotovelaço e velas à santa.No jogo com a Finlândia, Felipão não contou com abnegação nem com esforço físico; houve um nadinha de cotovelaço e desconheço se acendeu as velas à santa. A justificação ainda era cedo e a rapaziada estava cansada. Claro que os finlandeses (depois de terem dado 3 à Polónia), com a proximidade do Pólo, tinham vantagem – estavam mais frescos e tinham um suplemento anímico. Nós tivemos os incêndios e o Verão algarvio, o que nos cansa muito e nos indispõe. Como toda a gente percebeu, tretas. A verdade é que jogámos mal e Scolari ainda não tem equipa. Se continuar a ser rezingão a despropósito (sim, que eu acho que se pode ser rezingão com propósitos), vai ser um chato que nem vos conto.

in Topo Norte - Jornal de Notícias - 9 Setembro 2006

setembro 04, 2006

Há um governo inevitável?

Gosto das pessoas que resistem e interesso-me pelas que desistem. E até pelos silêncios em redor de uns e de outros. Vamos e venhamos, a política portuguesa regressou de férias com dois momentos a reter um manifesto sobre a Direita e um texto de José Sócrates publicado no "Expresso" de anteontem acerca do próximo congresso do PS. Há mais exemplos banais da chamada rentrée mas, para além dos rituais de Setembro, distribuídos pelos calendários dos partidos, estes acontecimentos valem a semana - não apenas pelo que afirmam mas também pelos silêncios e pelos burburinhos que geram.

Manuel Monteiro decidiu que tinha chegado a altura de esclarecer o país sobre "o que é ser de Direita". O texto não é despiciendo; pelo contrário, devia ser lido e merecia mais discussão, independentemente do peso quase nulo do PND. Marcelo Rebelo de Sousa pôs o dedo numa das feridas em relação a este manifesto, chamando a atenção para o pormenor de que "não faz sentido que quem não tem representatividade à direita queira forçar o PSD ao debate". Para bom entendedor, isto quer dizer o seguinte: o PSD não deve mencionar o assunto. Ou seja, o PSD até pode ter uma palavra a dizer; mas isso significaria ser arrastado pela loucura de Manuel Monteiro e ir a reboque de um partido inexistente. Esta é a vida real, para um bom político: se há ideias para discutir, elas devem ser discutidas dentro dos partidos e no interior da sua estratégia. Que interessa ao PSD debater o "pessimismo antropológico" ou "o papel do Estado na educação"? Nada, segundo Marcelo. Essas coisas não interessam à pátria, que continuará dividida entre o PS e o PSD na disputa pelo parlamento e no tabuleiro do habitual jogo do monopólio. Nesse sentido, o manifesto só vem "atrapalhar" e "dividir".

Por isso o texto de José Sócrates é importante. Mais uma vez, não apenas pelo que ele diz (que vai haver um congresso do PS e que daí em diante a velha jogatana de tendências internas ficará arrumada) mas pelos sintomas que exibe. É preciso compreender, antes de mais, que nenhum primeiro-ministro socialista teve tanto poder em Portugal; que nenhum governo de esquerda teve tanto apoio do centro e da direita como este; que nenhum governo aproveitou tão bem o seu tempo como o de José Sócrates - inclusive pelo facto de, "sendo de esquerda" (é um eufemismo), se ter dedicado a fazer as mudanças pelas quais qualquer governo à direita seria, num ápice, crucificado nas ruas e no Parlamento.

Votando Sócrates e votando Cavaco, o centro político e sociológico assumiu uma espécie de inevitabilidade do governo de Sócrates. Essa é a grande lição de 2005, a que mostrou o cansaço dos portugueses. E também a sua resignação.

O centro quer o ano lectivo a começar a horas e disciplina nas escolas. Quer sensatez na política externa e vigilância na administração pública - mais do que reformas que assustam e desmoralizam as classes médias. Quer as corporações debaixo de olho e alguém com voz forte no governo. As duas últimas experiências à direita foram, nesse sentido, uma desilusão - e a última, mesmo, uma catástrofe. Sócrates incarna como poucos o coração da classe média e a tranquilidade "dos empresários". De alguma maneira, à inevitabilidade do governo de Sócrates só falta juntar a inevitabilidade do PS. É isso que Sócrates se dispõe a alterar, disciplinando o partido e explicando aos militantes que a vida é mesmo assim - e mostrando aos eleitores que ele é capaz de arrumar a casa e de expurgar o folclore.

O PSD, entretanto, não aproveitou este tempo. O "velho PSD" colaborou na eleição de Marques Mendes para melhor poder trucidá-lo. Mas para quê, se Sócrates está a fazer o trabalho todo?

in Jornal de Notícias - 4 Setembro 2006

setembro 03, 2006

Cidades: (1) Porto Alegre


Uma das minhas casas seria na República, esse bairro central de Porto Alegre. Não de noite, povoada pelas faunas da cidade baixa, vagabundos, maus estudantes da UFRGS, loiras que durante o dia trabalham nas repar­tições, esquerdistas sem nostalgia, vicia­dos em cinema, fumadores de baseado, professores universitários que arregi­mentam alunas românticas, todos os géneros e categorias políticas de bebe­dores. Há também os esfomeados da sopa do bar de esquina, o Van Gogh, deputados municipais, gente que frequenta reuniões literárias, comenta­dores de futebol, caminhantes sem destino, bêbedos educados, boémios que contam a história da cidade, advogados cansados, mulheres bonitas, músicos de bares das redondezas, actores desempregados, desempregados que actuam como se não o fossem, agitadores, ven­dedores de cachorros quentes, adoles­centes de vestidos muito decotados, gente de todas as religiões gaúchas, ter­túlias nas esplanadas.

Desculpem as frases longas. Ao longo da minha vida escrevi muitas reportagens sobre lugares, cidades, viagens e países. Muitos desses lugares eram tão belos que os abandonava ligeiramente incomodado, entre eufórico e incomo­dado. Praias gentis protegidas por des­filadeiros, ilhas onde pequenos hotéis construídos em madeira aguardavam luas-de-mel. Cidades cheias de palácios, de ruas onde a História ameaçava o passeante. Países cheios de arte e de glória, bairros habitados por escritores de há trezentos anos, de quando havia literatura. Recebi cartas de leitores incomodados, como eu, por essa beleza incólume e comovente, ou elogios de viajantes fascinados. Sempre expliquei que a vantagem não era minha, mas desses lugares sobre os quais, na verda­de, eu devia calar-me para os descrever melhor. Nunca me propuseram escrever sobre Porto Alegre, a cidade mais sem regras que já conheci. Mas eu tinha de escrever sobre Porto Alegre.

Explico. As cidades europeias têm regras – algumas, inclusive, severas de mais. Ou acerca do trânsito, ou sobre a arquitectura e a sua preservação, ou sobre a proibição de fumar. Outras, como Salvador, na Bahia, parece não terem regras - mas elas estão lá: a cidade dos negros, a cidade dos orixás, a cidade dos baianos brancos, a cidade religiosa. Ou Buenos Aires, onde há uma certa anar­quia, sim, mas onde existe uma ordem monumental e uma tradição de bairro. Mas Porto Alegre é uma cidade que vive sobre o risco e vive em risco. Plantada diante do Guaíba, o rio que parece o mar (e que tem o seu poeta, Mário Quintana), Porto Alegre é uma cidade europeia como os europeus imaginam que devia ser uma cidade europeia: de­corada de cafés, de livrarias, de merca­dos de rua, de árvores em todas as ruas, de bairros que vivem na penumbra de jardins semiencobertos, que tanto mos­tra o seu chique antigo em Moinhos de Vento, como o júbilo popular nas ala­medas floridas e arborizadas do Brique da Redenção, onde ao fim-de-semana se passeia de chimarrão na mão, to­mando o mate e apanhando sol. Há restaurantes para fumadores e restau­rantes para não-fumadores. Esplanadas debaixo dos jacarandás da Alfândega e sotaques espanhóis no Mercado Pú­blico, onde se concentra a maior quan­tidade de lojas de boa comida do he­misfério sul - e onde, ao lado do restau­rante Gambrinus, existe o bar Naval para (de acordo com o menu afixado à porta) comer «o violento mocotó» ou a «terrível feijoada». Nesse complexo de ruas, entre a Voluntários da Pátria e a Floriano, a alma popular da cidade floresce como um dos grandes destinos a conhecer.

E Porto Alegre é uma das minhas cidades.

in Outro Hemisfério – Revista Volta ao Mundo – Setembro 2006

setembro 02, 2006

A vida é ingrata

O Baltazar, em Matosinhos, oscila entre a beleza do seu espaço ao princípio da noite e um certo conformismo do cardápio.

O que nos leva a gostar de um restaurante, além da boa comida ou da carta de vinhos? Geralmente as pessoas respondem: o ambiente. E o que é o ambiente? As coisas que nos rodeiam. Ora, as coisas que nos rodeiam no Baltazar são bonitas - as cores são atraentes, as mesas são espaçosas (até de mais), o serviço é agradável, o balcão e os sofás à entrada são acolhedores. O balcão, confesso, atraiu-me, com o seu colorido de garrafas lem­brando que há noites & outras noites, e que nem só de suavidade se faz a vida. Há um "restaurante da moda" em Buenos Aires, o Sucre (no meio das árvores de Belgrano), que me lembrou este de Matosinhos. Falta ao Baltazar a ponte sobre o bal­cão, de onde se inspecciona toda a sala, para nos encaminharmos para os lavabos, lá no piso supe­rior, e o grande cubo que constitui a sua garrafeira no meio do restaurante propriamente dito.

Pessoalmente, há restaurantes que me lembram outros, como um prato me lembra outro, e um sabor me recorda outro, e uma memória me trai no meio de uma garfada, e fico a desejar ardentemen­te que chegue a sobremesa para me livrar da melancolia da mesa. A ideia é que há uma melan­colia gastronómica - coisa tão cara a Vázquez Montalbán, por exemplo, que ordenava ao seu e nosso Pepe Carvalho que peregrinasse como perso­nagem de romance e não da vida real por entre casas de pasto, cozinhas de bairro, corredores de mercados. Tal como existe uma desilusão gastronó­mica, evidentemente. O Baltazar oscila entre a beleza do seu espaço ao princípio da noite e um certo conformismo do cardápio; nada de criticável. Há restaurantes onde só como um prato ou dois. Outros onde nunca sei o que escolher. E, finalmen­te, outros onde nunca escolho e peço conselho.

Eu, que também sou 'porteño' de coração e apre­cio o cibertango, gostei do Baltazar. Fui com os meus filhos, que gostaram bastante das entra­das - os cogumelos perfeitos, o 'carpaccio' enternecedor, bem preparado. Em onda argentina, sempre, passavam à nossa volta pratos de 'ojo de bife', 'quadril', 'bife de chorizo', e eu senti-me lá no hemisfério sul, apenas faltando um 'matambre' ou o 'cordero patagonico' - mas observei, guloso como sou, 'parrilladas' circulando para mesas vizinhas, carnes grelhadas a que só falta­vam os 'chinchulines' polvilhados e estaladiços, já que os 'riñones' dispenso. As saudades que eu tinha de um 'asado de tira', desse que a nossa União Europeia se prepara para nos roubar, com o argumento de que "tem osso". Quem nunca comeu um 'asado de tira', de ressonâncias gauchescas, não sabe o que é um verdadeiro churras­co. De tudo isso provei e considero aprovável. Mas, naquele último momento, enquanto os meus parceiros afiavam o dente para as escolhas feitas a partir do cardápio - e bebíamos um 'syrah' argentino de lei -, a melancolia gastronómica tomou conta de mim e verificou existir a propos­ta de um 'puchero', ou seja, um cozido argentino.

Vacilei uns segundos; e pedi o 'puchero'. Daí a um quarto de hora, eles, na mesa, trincavam as car­nes, 'al punto' ou 'jugosas'; eu vi apresentar-se, à minha frente, um prato fundo com umas bata­tas semidesfeitas, pedacinhos de cenoura, uns grãos-de-bico, fragmentos de vaca cozida. Não era o 'puchero', nem o meu nem nenhum que se apresentasse. Onde estava a composição quase barroca de vegetais, rescendendo? Onde estavam as carnes, glória da nação? Pareceu-me uma sopa de dieta, mas com pecados veniais acoplados. Segurei, a medo, a colher; mergulhei-a no caldo, aquoso, destemperado: estava ligeiramente azedo, que era o único sabor que se soltava do caldo sensaborão. Pequei, deuses da cozinha, eu sei: imagi­nei que o Baltazar, depois de me apresentar tanta ressonância argentina, me reservava a surpresa de um 'puchero', nem que fosse aproximado. Mas não. O pecado é meu, suponho, que passei por exótico ao pedir o prato. Mas estava na lista. E o que se apresenta na lista deve ser servido em termos.

Na mesa houve ainda sobremesas, que estavam razoáveis e eram bem desenhadas. Mas o 'puche­ro', Baltazar, que mal te fez? Vida amarga, ingrata.

À Lupa
Vinhos: * * *
Digestivos: * * *
Acesso: * * *
Decoração: * * *
Serviço: * * * *
Acolhimento: * *
Mesa: * *
Ruído da sala: * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira

Vinhos Tintos: 83
Vinhos Brancos: 41
Portos & Madeiras: 10
Uísques: 32
Aguardentes & Conhaques: 30

Outros dados
Charutos: Sim
Estacionamento: Parque nas proximidades
Levar Crianças: Sim
Área Não Fumadores: Sim
Reserva: Imprescindível
Preço médio: 25 Euros

BALTAZAR
Rua Brito e Cunha, 510
4450-084 Matosinhos
Telef. 229 373 127
Telm: 932 080 400
Encena à segunda-feira

in Revista Notícias Sábado – 2 Setembro 2006

O mar de lama

1. Eu esperava, nesta altura, comentar coisas simples e nor­mais, como o esforço que Jesualdo Ferreira terá de fazer para se livrar do molho holandês que en­controu no F. C. Porto, ou a hipó­tese de Fernando Santos se adaptar à Luz sem formar uma equipa de trincos. O Sporting vai adiantado, confesso - joga bom futebol. Dos outros ainda não sei. Mas a vida é como é: esta­mos rodeados, por todos os la­dos, pelo "caso Mateus" - um mar de lama.

É comovente e fácil juntar todos os mares de lama que rolam pelo futebol português e dizer que o "caso Mateus" é apenas uma parte do todo. Desiludam-se, in­génuos. Essa é velha de mais, mas já os oiço pela imprensa: ar­bitragens, tentativas de corrup­ção, telefonemas, apito dourado, o "sistema", as comissões de jus­tiça e de disciplina, tudo mistu­rado com o "caso Mateus". Mis­turar é mais fácil: diante da ava­lancha de dados, quem não se impressiona? E é um bom méto­do - enumerando os desastres, acumulando-os uns sobre os ou­tros, a catástrofe tem uma expli­cação natural que nem impres­siona assim tanto.

Mas o "caso Mateus" precisa de explicações a par e passo: quem permitiu que isto acontecesse (e até mais: quem permitiu que isto acontecesse com o Gil Vicente e impediu que aconteces­se com o Paços de Ferreira?), quem se demitiu das suas responsabilidades e quem levanta o tapete para que a incompetên­cia lá se esconda? É natural que encontremos gen­te a bradar contra "a velha Liga"; mas a rapaziada da "nova Liga" já lá esteve e é isto. Ela também se dá bem com o mar de lama. Por isso, eu teria pena se a FIFA pu­sesse esta gente na ordem - mas merecem. Custava a todos, mas era uma limpeza.

2. Mas uma pergunta não me sai da cabeça: o que estão a fazer, nessas comissões, tantos juízes, juristas, desembargadores, le­gisladores e comentadores de leis? Duas respostas céleres: l) a desprestigiar a justiça portugue­sa, naturalmente; 2) a transfor­mar o futebol numa república cheia de regulamentos onde eles nunca ficam fora-de-jogo.

3. Jardel começou a marcar. Es­pero que marque. Pessoalmente, espero que - com golos e juízo - se vingue de quem lhe destruiu a carreira (outro mar de lama) e de quem o impediu de jogar.

4. Deco foi considerado, por gen­te séria e bem cotada, o melhor médio da Champions League. Ou seja: o jogador português re­cebeu essa distinção mas a im­prensa desportiva andava ocu­pada a jogar fora do campo. Vi­ram algum destaque sobre o as­sunto?

5. Mas deixem-me voltar ao "mo­lho holandês" que Adriaanse deixou no Dragão: Diego foi considerado o melhor jogador do mês na Alemanha.

in Topo Norte - Jornal de Notícias - 2 Setembro 2006