setembro 30, 2006

A velha recompensa

O Sete à Sete, por fora, não promete o que acaba por fornecer ao estômago. A velha província do Minho ainda não está rendida à supremacia do "espaço de design".

Já não tenho como justificar com decência as minhas peregrinações pelo Minho – e sobretudo pelo Alto Minho. Eu bem tento: falo da paisagem, elogio o céu, recito sonetos, mas o meu estômago aplaude sempre que tem oportunidade. É um traidor; estamos entre amigos, e eu sugiro um pas­seio, uma "jornada de observação ao património", uma viagem curta de fim-de-semana sem destino nem justificação, e ele, o traidor, começa a lançar suspeitas, a procurar endereços, a vigiar os mapas. Sei o que ele quer, conheço-o. Mesmo os meus filhos começam a sorrir quando menciono a hipótese. Eles conhecem-me. E eu começo a reconhecer essa inquietação.

Há, evidentemente, um cardápio do Alto Minho – a lampreia, o cabrito, o saboroso pica-no-chão, o sável e as formas de tratar o bacalhau. Muitas vezes procuro satisfação para o estômago em outros pratos, uma invenção familiar, uma curiosidade que passou entre gerações, um delírio da cozinheira; a imaginação não tem limites quando os produtos que entram na cozinha são bons e apetitosos. Já me chegam as dietas a que temos obrigação de responder; as minhas peregri­nações são, por isso, desordenadas e irresponsáveis. Mas têm, reconheço, a ver com a pai­sagem. Há uns anos o Minho estava mais desagradável; lentamente, aqui e ali começou a borbulhar a ideia de que não se podia perder a paisagem, de que as vilas tinham de tratar da sua aparência, recuperar traças e fachadas, limpar as ruas. O resultado é francamente positivo e orgu­lho-me do meu país quando se veste de lavado mesmo quando tem de passajar uma roupinha usada (sobretudo nessas ocasiões, valha a ver­dade). Monção é um dos meus apetites, Melgaço,
Viana, Cerveira bem cuidada, Ponte de Lima sem­pre apresentável, Âncora arejada, Paredes de Coura de ruas novas, Ponte da Barca e Arcos - eu gosto e é quase sempre uma surpresa, sobretudo para mim que não sou minhoto e encaro cada incursão com a ligeireza de um turista.

E gosto desses restaurantes apetecíveis, onde se sus­peita – à distância – o calor de um forno. Estes dias de chuva que interromperam a canícula fazem-me apetecer pratos completos (já lá iremos na próxima semana, para concluir este roteiro de restaurantes do Minho). O Sete à Sete, por fora, não promete o que acaba por fornecer ao estômago – não se iluda.

A velha província do Minho ainda não está rendi­da à supremacia do "espaço de design" (ah, Porto!) sobre a culinária, se bem que haja exemplos em que vale a pena a associação. Beleza é quando vem para a mesa a broa de milho, escurinha e saudável, profunda. Então sim, começa a paisagem a ganhar sentido. A viagem começa a ser recompensada. Espera-se um pouco, à entrada, porque estava cheio o restaurante (espanhóis aqui e ali, gente de fim-de-semana), e era dia de cabritinho grelhado, estaladiço e suculento, muito bom. Não era, infelizmente, época de lampreia; o Sete à Sete oferece-a sobretudo de escabeche ou seca, e quem tem saudades do sabor do escabeche, que é completo, pode provar o sável preparado com cuidado, antes de se aventurar pelas carnes, que são supimpas, e de passar pelo bacalhau em posta firme e gelati­nosa (gratinado, recheado, com cebolada, assado na brasa): começa uma família ao lado com o arroz de sarrabulho e com o galo de cabidela. Soltam lou­vores, e eu respeito, mas ando pelo cabrito, já que não é dia de cozido – à minhota, multiplicando sabores e elevando as papilas até ao céu-da-boca, para que não se perca nada. As batatinhas são farinhentas e saem do forno para serem recebidas com comoção. Desfazem-se na língua, como previa Camilo num dos seus elogios (não era só Aquilino que lhes dedicava passagens ditirâmbicas). Com um vinho da região, a ligeira acidez pediu contas à sobremesa: barriga-de-freira e leite-creme, que antecederam o café e uma aguardente de vinho verde, cheia de odores, frutos, respiração.

Sete vezes recompensado.

Na próxima semana, leitores, agora sim, vamos ao cozido.

À Lupa
Vinhos: * * *
Digestivos: * * *
Acesso: * * * *
Decoração: * *
Serviço: * * *
Acolhimento: * * *
Mesa: * * *
Ruído da sala: * * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos Tintos: 48
Vinhos Brancos: 26
Vinhos verdes: 14
Portos, Madeiras e licores: 9
Uísques: 12
Aguardentes & Conhaques: 10

Outros dados
Charutos: Não
Estacionamento: Fácil
Levar Crianças: Sim
Área Não Fumadores: Não
Reserva: Conveniente

SETE À SETE
Rua Conselheiro João da Cunha
4950-407 Monção
Tel: 251 652577