novembro 14, 2007

Entrevista no Estado de S. Paulo


A escrita híbrida é o tema da terceira edição do Fórum das Letras de Ouro Preto, que reúne até domingo 60 escritores do Brasil e do exterior, entre eles o premiado autor português Francisco José Viegas, que veio lançar seu Longe de Manaus (Editora Record, 352 págs., R$ 48). Viegas chega acompanhado de outros colegas convidados de países lusófonos, entre eles os angolanos José Eduardo Agualusa e Ondjaki. Ele morou no Brasil e faz, em Longe de Manaus, uma viagem pela língua portuguesa, traduzindo como nenhum outro o hibridismo temático do encontro mineiro, do qual participa no último dia, debatendo com os escritotes Marçal Aquino, Tony Belloto e Newton Cannito o romance noir e o diálogo entre literatura e cinema.

No livro, sobre crimes e pessoas que somem sem deixar pistas, Viegas conta a história em português de Portugal, depois em português do Brasil e, finalmente, mistura os dois num caldeirão étnico em que a língua vai formatando o indivíduo - no caso, o narrador de um romance policial que não é bem o que promete, mas outra experiência híbrida entre gêneros. Longe de Manaus é, ao mesmo tempo, ensaio filosófico, tratado estético, manifesto poético e estudo antropológico sobre a evolução de uma língua. Francisco José Viegas concedeu uma entrevista ao Estado sobre Longe de Manaus, prêmio de melhor romance da Associação Portuguesa de Escritores de 2006.

Você já disse que seu pessimismo, em alguns momentos, ultrapassa o de seu inspetor Jaime Ramos. Essa é uma característica portuguesa, como a melancolia e a solidão?

Eu acho que não sou pessimista; sou cético. É uma questão metodológica. O cético é muito mais feliz, porque mantém uma relação mais divertida e saudável com a realidade. Agora sobre o pessimismo português, ele existe, sim - mas é uma espécie de produto turístico, tal como a melancolia, bom para ver ao longe. De perto é muito triste. Pessoalmente, acho que o pessimismo português e o fado são o resultado de uma mentalidade melancólica mas mesquinha e provinciana. A gente vendeu essa imagem durante anos, juntamente com o fado, a desgraça, as padarias e os pobres Manéis e Joaquins, mas Portugal mudou bastante nos últimos anos, se bem que isso não se note pela nossa literatura. Em Longe de Manaus, a solidão portuguesa tem a ver com a procura da felicidade longe de Portugal, esse tem sido o destino de muitos portugueses: partir para qualquer lado, fugir. Por isso os portugueses são geniais quando estão fora do país, são inventivos, mais cosmopolitas, menos presos ''''à terrinha''''.

Há 16 anos você criou o inspetor Jaime Ramos, um homem vulgar, cético e pessimista. Você já conheceu uma personalidade tão complexa quanto a dele, que é ao mesmo tempo delicado e tranqüilo? Certamente ele não é seu alter ego...

É capaz de ser, também, uma espécie de alter ego, sim. Eu gosto bastante dele, protejo-o, sinto uma grande cumplicidade nestes oito livros em que ele atua. Mas à medida que ia trabalhando com pessoal da polícia de investigação ia descobrindo pessoas assim, com esse grau de complexidade e capacidade de surpreender. De alguma maneira, ele é uma figura amável e que torna amável até coisas aparentemente pouco simpáticas: é um conservador, um pequeno-burguês, um homem culto, amoral, desejoso de passar despercebido. Os modelos de detetive clássico dão sempre a imagem de um homem alcoólatra, meio em conflito com a família, a casa, a sociedade. Jaime Ramos foge a esse esquema.

Longe de Manaus é escrito metade em português de Portugal e metade em português do Brasil. A língua, em certa medida, conduz essa narrativa e a história de crimes em ex-colônias portuguesas. Como a alegoria entra nessa história? Será o português do Brasil uma evolução natural do português de Portugal?

Eu vivia no Brasil, na época (em Salvador) e queria escrever um romance sobre a ponte que une as duas margens do Atlântico. De certa maneira, as solidões portuguesa e brasileira. Por isso me apaixonei por aquelas duas mulheres, Daniela e Helena, as paulistas de Longe de Manaus. O livro seguiu um rumo diferente, mas fui incapaz de largar a ortografia brasileira e as inflexões do português do Brasil, muito mais ricas e inventivas. E, se havia personagens brasileiras, eu tinha de colocar elas a falar com a ortografia brasileira, o modo brasileiro de falar o português. De resto, o português do Brasil é o motor do futuro da nossa língua comum. O português de Portugal está condenado a ficar mais pobre, mais chato. A solução é abrir para a antropofagia lingüística.

Você já disse que o romance policial, como forma literária burguesa, ordena o mundo. Poderia desenvolver mais esse conceito de ordenamento a partir de uma criação ficcional? A literatura tem esse poder?

O romance, como nós o vemos hoje, mesmo nas suas formas menos clássicas, deve muito ao policial, que sempre manteve a necessidade de categorias muito claras: personagens, investigação, demanda, conclusão. É como ter uma frase com sujeito, predicado e complemento direto. Às vezes, em literatura, há sujeitinhos à procura de inovação, tentando chamar a atenção. Eu acho isso ridículo, é gente que nunca leu Machado, o das Memórias Póstumas de Brás Cubas. Juntamente com Viagens na Minha Terra, de Garrett, é o mais moderno dos romances em língua portuguesa. O policial é uma espécie de método, de ideal de perseverança numa investigação. Toda a literatura, nessa medida, é policial - além de se preocupar com a morte, o desaparecimento, o crime, o mistério, que são os motores da narrativa policial. No meu caso, não me interessa o policial como interrogação social ou sociológica sobre o mundo do crime ou da violência. Não sou sociólogo nem o escritor tem de se preocupar com a sociologia; em meu entender, o policial constitui uma reinvenção do mundo a partir de uma tragédia (o crime) e de um drama (a necessidade de saber, a possibilidade de punir). Num outro livro, uma pequena novela, A Poeira Que Cai sobre a Terra, Jaime Ramos sabe tudo sobre os crimes, sabe tudo - mas recusa-se a avançar na investigação, vai acabar por eliminar os vestígios e as provas. Ele assume o lugar do juiz e contraria a moral burguesa. O policial tem essa possibilidade. A de criar uma ordem na história para que exista, provavelmente, uma ordem no mundo. O romance policial, como forma literária burguesa, ordena o mundo. As pessoas querem uma ordem na vida, querem uma explicação. Não há maus e bons. O meu detetive é ótimo para defender os criminosos.

Em certo momento de Longe de Manaus, o autor do livro é satirizado por seu personagem quando diz que ninguém em sã consciência escreveria um livro sobre Manaus. Quais as impressões que você guarda da cidade?

Olha, eu acho Manaus uma cidade muito cinematográfica. Difícil de viver lá, mas boa para cinema. No livro, eu digo que é boa para filmes com atores silenciosos, como De Niro. Tem, além disso, uma história espantosa de multiculturalismo antes de aparecerem esses sujeitinhos do multiculturalismo militante. Havia muçulmanos e judeus na mesma rua, perseguidos do Líbano ou da Europa, gente que se escondia do mundo em Manaus. Por isso é tão importante a história de loucura evidente na construção do Teatro Amazonas. De alguma maneira, o Teatro Amazonas é uma metáfora do Brasil, uma espécie de barragem contra a barbárie que rodeia a cidade.

Você parece mais identificado com a literatura brasileira que com a portuguesa. A literatura brasileira é melhor que a portuguesa?

É. É melhor. Eles vão me cozinhar vivo, mas é a verdade. O fato é que o romance brasileiro tem hoje uma criatividade, uma intensidade de tal forma, que se me perguntassem quais são os autores de língua portuguesa que eu mais gosto de ler, em dez haveria sete brasileiros. Sem qualquer preconceito anti-português. Tem uma vantagem sobre grande parte da ficção portuguesa: não é kitsch.

A narração de Longe de Manaus é difusa. Ou o narrador assume uma informação contestável ou ele aparece tão amalgamado na consciência dos personagens que é difícil saber se as informações que estamos lendo são ou não confiáveis. Cito como exemplo as informações de Ramiro sobre Portocarrero. Até que ponto o passado africano pode ser contado segundo o ponto de vista de um narrador que se ausenta no capítulo seguinte?

Mas a nossa vida também é assim! Na nossa vida, há personagens que aparecem e desaparecem, pessoas por quem nos apaixonamos durante uma só noite, e nem chegamos a transar com elas. E há episódios da nossa vida que só conseguimos narrar de maneira difusa. Mas mudaram a nossa forma de ver, a nossa sensibilidade. A certa altura, Jaime Ramos faz a mesma pergunta que você me faz. E Osmar responde-lhe: ou acredita ou não acredita, o mundo não é a preto e branco, não é tudo da mesma cor. Você fala de Ramiro, mas Ramiro é um personagem estável, uma espécie de Sibila tragicômica (anda descalço, bebe Blue Curaçao, é um advogado que tem tesão por juízas), que guarda a memória de África como um arquivo sentimental. Ele aparece em outros livros, e aparecerá no próximo com mais destaque.

in Estado de S. Paulo – 1 Novembro 2007

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