janeiro 05, 2008

Recordações das ilhas


O cronista despede-se dos leitores com os sabores do Espaço Açores, em Lisboa.

Durante os dois últimos anos escrevi sobre restaurantes neste espaço. A Academia Portuguesa de Gastronomia decidiu premiar estas crónicas com argumentos que muito me honram e que recordarei com gratidão. Foram sempre uma e a mesma crónica; esforcei-me por escrever bem, por escrever com sinceridade e por escrever com prazer. Despeço-me hoje agradecendo aos leitores a paciência e a credulidade. Julgo que mereço ambas. Esse tempo acabou e termino com uma evocação que me parece igualmente justa: os Açores.

Sempre que me lembro das ilhas penso num último momento de felicidade absoluta. A gastronomia fala da sensação, sem incómodo nem pesadelo: não existe prazer sem evocação, deslumbramento, delírio, até imaginação – ou mentira, a suavíssima mentira que melhora os condimentos e acrescenta a arte. Tanto a crítica literária como a de restaurantes se ressente das tecnocracias que as dominam de tempos a tempos. Suponho que um restaurante não pode reduzir-se, como pensam as modernas ASAE do espírito e da alimentação, a um laboratório. Alguma alma deve flutuar mansamente, alguma recordação deve harmonizar a nossa presença dentro dessas quatro paredes onde por vezes nos alimentamos, onde tantas vezes nos perdemos de paixão e onde outras tantas nos resignamos ao que as coisas são. E as coisas são cada vez mais propícias ao novo-riquismo e aos dicionários técnicos.

Não é disso que nos fala o Espaço Açores, herdeiro do Bambino d’Oro, mas cuja lista desenvolveu uma agradável sabedoria onde se mistura a vontade de agradar a paladares modernos e a ideia de conservar o essencial de uma carta açoriana, de marca muito micaelense, desde o universal queijo com pimenta da terra, às saborosas e suculentas lapas na grelha (regadas com um nadinha de limão galego, se houver), além das morcelas regionais, da salada de favas, ou dos carapauzinhos (os chicharrinhos de boa memória). Esta proposta de entradas é um portal que se abre sobre a simplicidade comovente da cozinha açoriana no seu conjunto, feita de ingredientes simples e muitas vezes pobres, mas a que o tempero ilhéu empresta sabedoria e alcance.

Um passeio pelos peixes mostra-nos a embaixada do mar dos Açores, desde logo no arroz de lapas, nas lulas guisadas (com o seu molho intenso, forte, acessível), o polvo “à regional” (que sempre me soube à ilha do Pico), a moreia e a abrótea, peixes-emblema do arquipélago, juntamente com o rocaz (uma verdadeira experiência a reter) ou o boca-negra, além da cavala, do atum ou do mero. Nesta altura, a linguiça com inhame, que vinha da mesa de entradas, já me tinha devolvido o estômago à condição mais sentimental; estava preparado para um alcatra à terceirense, mas, em gincana, passei pelo coelho bravo e aterrei no feijão assado – um primor: elegante, sedoso, com a secretíssima vibração das grandes cozinhas de família das ilhas. Um dos comensais estava ainda perdido em jogos contemplativos, mirando de alto o seu polvinho – um mimo, pensei, roubando um nico. Provei assim um no Pico, excelente, guisado, escuro, denso. Para terminar, recordando o bife do Alcides, em Ponta Delgada, testei o bife micaelense, muito suculento e firme, arredondado, volúvel como uma princesa das ilhas, saboroso.

Na hora das sobremesas, aguardei o meu pudim de maracujá, uma tentação permanente, mas a lista fornece outras opções, como o excelente queijo com doce de capucho (uma experiência a tentar, sem dúvida, caso não conheça), o pudim de chá, o pudim de coco ou o bolo de caramelo.

Estas coisas lembram-me momentos de intensa harmonia do mundo e uma velha aguardente do Pico, de há muitos anos. Na época, fumava-se nos restaurantes, e havia tempo para um “Beldina” micaelense, de tabaco maduro, ou, mais cosmopolita, para um robusto da Fábrica Estrela. Saí do restaurante com uma sensação de melancolia, que é o que me dá mal chego aos Açores. Depois, sobrevém uma alegria intensa. E é a vida.
Assim me despeço.

À Lupa
Vinhos: ***
Digestivos: ***
Acesso: ***
Decoração: ***
Serviço: ***
Acolhimento: ****
Mesa: ****
Ruído da sala: ** *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos tintos: 47
Vinhos brancos: 16
Aguardentes: 14
Colheitas tardias & moscatéis: 8
Portos & Madeiras: 12
Uísques: 16

Outros dados
Charutos: sim
Estacionamento: relativamente fácil
Levar crianças: sim
Área de não fumadores: não
Reserva: à noite
Preço médio: 18 euros

Espaço Açores
Largo da Boa Hora (Junto ao Mercado da Ajuda)
1300 – 098 Lisboa
Tel. 21 364 08 81

in Revista Notícias Sábado – 5 Janeiro 2008

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